uando nos formamos somos desafiados em relação ao que vamos fazer. Os caminhos são diversos: residência médica, especialização, carreira acadêmica, emprego como generalista etc. Mas só tem uma coisa que costuma ser comum a todos os caminhos: a necessidade de dar plantões como trabalho regular ou como complemento de renda.
Por Dr. Jader Burtet.
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É muito difícil que um(a) médico(a) receba o seu diploma e não dê pelo menos alguns plantões no início da carreira ou ao longo da trajetória profissional. Eu mesmo recebi o grau de médico em 2004 e logo fui aprovado no programa de residência médica em ginecologia e obstetrícia na Santa Casa de Porto Alegre. A bolsa de residência era insuficiente para manter as mínimas despesas necessárias para a sobrevivência (aluguel, condomínio, alimentação e transporte). Portanto, também tive a necessidade de ir em busca de plantões para complemento de renda.
Dava alguns plantões de final de semana como generalista em clínicas, postos de saúde e hospitais. E, como todo colega, ajudei muitos pacientes, salvei vidas, me senti orgulhoso da minha formação, mas também me senti frustrado, questionei a minha habilidade técnica em alguns procedimentos e fui explorado por instituições que não tinham respeito nem qualquer comprometimento com o trabalho do médico. Sobre este último quesito, faço referência não só à falta de estrutura para atendimento como à informalidade de contratação, aos valores aviltantes que são oferecidos e à inadimplência dos pagamentos. Sim, também sofri com falta de pagamentos, fato muito comum (por incrível que pareça) na prática laboral do médico.
Tendo em vista todas essas questões que permeiam a nossa atividade como médicos em plantões, elaborei algumas dicas práticas para que o seu trabalho seja o mais satisfatório possível e com o menor número de dissabores. Acredito que muitas coisas aprendemos com a prática mesmo, mas algumas dicas são importantes:
Sobre a escolha do tipo de plantão
Você deve conhecer o local de trabalho e, se possível, sempre conversar antes com colegas que já deram plantão nesse local. Importante entender o tipo de atendimento e o grau de complexidade usual dos pacientes que chegam. O local deve ter instalações adequadas com instrumentos básicos para o atendimento. Não custa checar se existe monitor adequado, eletrocardiograma, exames básicos de imagem e de laboratório.
Também é importante checar se o local tem medicações para o atendimento das condições clínicas mais comuns como anti-hipertensivos, broncodilatadores, analgésicos, anticonvulsivantes e antieméticos. Não dê plantões em locais sem as mínimas condições de atendimento. Se você já está acostumado a trabalhar sob essas condições é importante pressionar os gestores do local para que ofereçam os elementos que faltam.
Uma grande armadilha é resignar-se que "é assim mesmo" e deixar de cobrar os gestores. Caso não tenha sucesso, é importante manter o conselho regional de medicina bem como o sindicato médico local informados. Diante de qualquer irregularidade, sempre solicite apoio destas instituições.
Sobre o fluxo de pacientes
Antes de dar o aceite para iniciar os plantões procure entender o fluxo de pacientes do local. Verifique como deve ser o encaminhamento dos pacientes graves. As perguntas devem ser relativas à logística de regulação, disponibilidade de ambulâncias e de médicos para acompanhar o transporte. Se o local que você for trabalhar for de alta complexidade verifique se existe unidade de terapia intensiva (UTI) com plantonista disponível para internar os casos graves.
Apesar de parecerem coisas óbvias, muitas vezes podemos nos surpreender com a dinâmica de funcionamento do local, mesmo em cidades maiores como algumas das capitais brasileiras.
Sobre o prontuário médico
Qualquer tipo de questionamento jurídico ou ético-profissional será INTEIRAMENTE baseado no prontuário médico. Portanto, não deixe de registrar absolutamente tudo o que você fizer em prontuário. Inclusive as questões técnicas devem ser registradas. Um exemplo prático é quando decidimos por um exame pela falta do mais correto naquela situação. Escreva no prontuário que você indicou o exame, mas que foi negado porque a instituição não tinha disponível. Por isso, foi optado pelo outro exame. Deixe registrado em prontuário tudo o que foi orientado e indicado. Se não foi realizado, o prontuário é a prova legal de que não foi por sua negligência ou omissão, mas das condições limitadoras do local.
Também registre tudo o que você orientou ao paciente. Muitas vezes explicamos ao paciente, mas não registramos em prontuário. O exemplo mais clássico é a necessidade de retornar à unidade de saúde se piora do quadro ou qualquer outro sintoma. Deixe registrado que você orientou o paciente a retornar caso tenha qualquer agravo. Também é importante deixar registrado que você orientou o paciente sobre os possíveis efeitos adversos das medicações que prescreveu. Não é necessário escrever todos os efeitos adversos no prontuário, só deixar registrado que orientou quanto aos possíveis efeitos adversos e interações medicamentosas.
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