epois de uma queda expressiva no número de casos de Covid-19 no país – consequência, sobretudo, do avanço da vacinação – o surgimento da variante Ômicron volta a acender o alerta mais intenso, exigindo atenção, sobretudo, de quem está na linha de frente, evitando que casos que eventualmente se tornem graves passem despercebidos.
Em paralelo à nova onda da Covid-19 impulsionada pela nova variante, no Brasil, na segunda quinzena de dezembro de 2021, os casos de síndrome gripal haviam sofrido alta em pelo menos nove estados, com possibilidade de crescimento, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), que monitora os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por meio do SIVEP-Gripe.
Conforme os dados, a probabilidade de crescimento de SRAG em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Maranhão, Pará, Amapá, Amazonas, Acre e Roraima estava em torno de 95% no período. Vale lembrar que, de acordo com a lei 8080, a vigilância epidemiológica é uma das atribuições do SUS, mas estar atento aos dados epidemiológicos contribui para a tomada de decisões mais assertivas na esfera da responsabilidade de cada um.
Ômicron: como tem se dado a evolução viral?
Em 26 de novembro de 2021, a Organização Mundial da Saúde nomeou a variante de preocupação B.1.1.529 como Ômicron. A decisão de classificá-la entre as variantes de preocupação se deu pelo fato de que evidências demonstraram que a Ômicron tem mutações que podem gerar impactos em seu comportamento.
Tais mutações, como se sabe, têm sido foco de interesse de muitos pesquisadores, como o biólogo Jesse Bloom, que atua no Fred Hutchinson Cancer Research, em Seattle, Washington. Os avanços de Bloom foram citados em artigo da revista Nature, e indicam como possivelmente se dará a evolução viral da Covid-19.
Para chegar a tais reflexões, Bloom testou amostras de sangue de pessoas expostas a um tipo de coronavírus sazonal nomeado 229E, nos anos de 1980, para anticorpos de diferentes versões deste mesmo vírus. Os resultados revelaram que as amostras de sangue da década de 1980 continham altos níveis de anticorpos bloqueadores de infecção contra uma versão de 1984 do vírus 229E, mas tinham menor capacidade neutralizante contra a versão de 1990 do mesmo vírus, por exemplo. O biólogo fez comparações com amostras de outros anos também, observando sempre variação da resposta imunológica.
Para Bloom, depois de dois anos de avaliação de SARS-CoV-2, é possível observar paralelos entre o comportamento de variantes como Ômicron e Delta, que carregam mutações que reduzem a potência dos anticorpos gerados contra as versões anteriores do vírus, assim como se observou nos estudos do coronavírus sazonal 22E9.
A Ômicron representa descontrole da propagação viral ou um caminho para endemia?
Ainda não há respostas definitivas para a questão. O que se sabe, ainda segundo o artigo da revista Nature, é que a evolução da SARS-CoV-2 nos próximos meses poderá determinar como será o comportamento do vírus: algo ainda mais ameaçador ou um vírus endêmico.
Enquanto observam o cenário evolutivo, cientistas buscam respostas também em outros patógenos que possam contribuir com uma maior previsibilidade do comportamento viral de SARS-CoV-2.
Ômicron e gripe: mutações e fragmentos de vírus da gripe comum
Há indícios de que a variante Ômicron tenha adquirido pelo menos uma de suas mutações de fragmentos de vírus que causam o resfriado comum.
Pelo menos é o que estudam pesquisadores que avaliam a sequência genética da nova variante. Segundo informações divulgadas em um estudo preprint, a sequência genética vista na variante Ômicron não foi observada em nenhuma outra variante de SARS-CoV-2 anteriormente.
Veja alguns detalhes do estudo:
- Os pesquisadores compararam as mutações da Ômicron com variantes de preocupação anteriores, como Alpha, Beta, Gamma, Delta, e com variantes de interesse, como Lambda, Eta, Iota, Kappa;
- Ao analisar as mutações, os cientistas observaram todas as linhagens de SARS-CoV-2, os genomas, as proteínas e os aminoácidos;
- Foi observado o surgimento da mutação de inserção (ins214EPE), que até então não havia aparecido em nenhuma outra linhagem de SARS-CoV-2;
- Os pesquisadores acreditam que a sequência de nucleotídeos que codifica para ins214EPE pode ter sido adquirida por troca de modelos envolvendo genomas de outros vírus que infectam as mesmas células hospedeiras de SARS-CoV-2 ou por transcriptoma humano de células hospedeiras infectadas com o novo coronavírus;
- Isso significa dizer que é plausível afirmar que a inserção de Ômicron possa ter evoluído de um indivíduo coinfectado;
- Agora, os pesquisadores tendem a investigar se as células humanas têm servido de “sistema evolutivo” para o vírus hospedeiro e a interação genômica interviral.














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